Sobrevivendo ao primeiro contato com o Arch Linux

Certo exagero meu, já tive contato com o Arch Linux anterioremente. Muito antes do systemd, quando ele usava um Init System lógico e racional. Talvez no século passado? Estive apartado dele por longo tempo. Mas isso não vem ao ponto agora.

O ponto é que preciso é ser honesto logo de cara: eu não deveria estar escrevendo este post.

Não porque algo deu errado. Pelo contrário — porque deu certo demais, rápido demais, sem drama suficiente para justificar o pavor histórico que eu nutria pelo Arch Linux. E isso, convenhamos, é quase decepcionante para um blog chamado Teimoso do Linux.

Mas vamos ao começo.

Como cheguei até aqui

Este blog nasceu do Slackware. A ideia original era explorar as possibilidades de rodar ferramentas modernas de geração de imagens via IA — especificamente o ComfyUI — no bom e velho Slack 15. Pesquisei, perguntei, fuçei fóruns obscuros. A resposta foi gentil mas implacável: o Slackware 15 estável tem um Python velho demais para essa história, e o Slackware-current — a versão em desenvolvimento — tem um aviso oficial alertando que ele é um campo de testes, não deve ser usado em ambiente de produção real e se algo der errado, você estará por sua conta e risco. E termina com um “você foi avisado”, o que não inspira muita confiança para quem quer que as coisas funcionem.

Depois de muito brainstorming — o tipo de conversa que acontece com a máquina aberta e as mãos cheias de parafuso — cheguei a uma conclusão que me custou algum orgulho: para rodar o ComfyUI com alguma sanidade, o Arch é a escolha menos masoquista disponível.


Desktop do Lab
Cirurgia para aditivar mais armazenamento.


O Slackware 15 estável ganha um SSD menor como zoológico digital, laboratório de experimentos sem pressão, gerador farto de conteúdo para este blog. Cada coisa no seu lugar. E assim, com a dignidade levemente ferida de um Slacker Stable de carteirinha, eu abri o instalador do Arch.

A Instalação: quando o inimigo te surpreende

O Arch Linux de 2026 não é o bicho de sete cabeças que a lenda descreve. Tem um instalador de texto que guia o processo com perguntas diretas. Fui respondendo uma a uma, muitas vezes sem entender completamente o que estava escolhendo, confiando numa pesquisa prévia e em consultas aos meus conselheiros técnicos, enquanto sentado na frente do teclado.

Escolhi BTRFS como sistema de arquivos — por uma razão bem simples: ele permite criar “fotografias” do sistema antes de atualizações, de forma que se algo quebrar, você pode voltar atrás. Para quem vai usar o Arch — famoso por atualizações que às vezes surpreendem — isso é menos um luxo e mais uma necessidade emocional.

Escolhi o Kernel Zen, que promete melhor desempenho para esse tipo de uso. Escolhi o Plasma com Wayland. Fui seguindo.

Tive um momento de dúvida genuína quando o instalador perguntou sobre snapshots — aquelas tais fotografias do sistema. Apareceu uma opção nova chamada Snapper, que eu não conhecia. Pesquisei na hora, descobri que é exatamente o que eu precisava, e confirmei. O instalador cuidou do resto.

Teve também uma novidade que não esperava encontrar: uma opção chamada plasma-login-manager, descrita como o novo gerenciador de login do KDE, ainda em desenvolvimento. A tentação de experimentar existiu por uns trinta segundos. Depois lembrei que já estava saindo da zona de conforto o suficiente por um dia, e fiquei com o velho e confiável SDDM.

O Momento da verdade

Sistema instalado. Primeiro reboot.

O GRUB apareceu. O Plasma subiu. Sem tela preta. Sem mensagem de erro. Sem o kernel me xingando em hexadecimal.


Tela de login SDDM
Até aqui, tudo correu bem.


Funcionou. Fiquei admirado em ver o Arch Linux simplesmente funcionando na primeira tentativa, após passar anos ouvindo histórias de horror. É quase como chegar num duelo esperando uma briga e o adversário te oferecer café.

Algumas lições aprendidas no caminho

Depois que o sistema subiu, ainda havia trabalho a fazer — configurar a memória virtual, criar o arquivo de swap, ajustar detalhes que o instalador não cobre. Aqui confesso que naveguei em águas que não dominava, apoiado em pesquisa e orientação externa para não cometer erros que o BTRFS cobra caro.

O BTRFS, por exemplo, tem uma relação complicada com arquivos de swap que eu jamais descobriria sozinho. Existem passos específicos que precisam acontecer numa ordem específica, caso contrário o resultado pode ser silenciosamente desastroso. Não vou fingir que sabia disso de antemão.

A lição é simples e antiga: saber o que você não sabe é tão importante quanto o que você sabe. O Arch recompensa quem pesquisa antes de agir. E pune quem não pesquisa com a mesma indiferença tranquila. Um dia ainda vou aprender isso de verdade. Espero que seja antes de quebrar o sistema.

A Sensação que fica

Usar o Arch tem uma qualidade específica que merece ser nomeada: é como morar num apartamento em cima de um vulcão adormecido. Bonito, funcional, excelente localização. Mas a cada atualização do sistema você se pergunta se hoje é o dia do “Kernel Panic”.

Essa sensação não desaparece com o tempo. Quem usa Arch sabe que ela está sempre lá. O Snapper não elimina o vulcão — coloca uma rota de fuga sinalizada.

O Slackware 15, por outro lado, é uma casa sólida construída em terreno estável. Você sabe exatamente o que tem, sabe que ele não vai alterar nada sem você pedir, e dorme tranquilo. O preço é pagar com sangue, suor e lágrimas cada novidade um pouco mais complexa que você quiser trazer de fora.

Dois paradigmas diferentes. Dois tipos de teimosia diferentes.


KDE Plasma
KDE Plasma em toda sua glória.


Por enquanto, o Arch ganhou uma função específica neste setup: rodar o ComfyUI enquanto o processador sua em bicas gerando imagens. O Slackware 15 no SSD menor continua vivo, respirando, cheio de experimentos mal explicados esperando por um post.

O Teimoso do Linux cedeu um pouco de terreno. Mas não baixou a guarda.

Cenas do próximo capítulo…

Instalando o ComfyUI no Arch(ou tentando), e descobrindo quantos minutos o processador leva para produzir algo que se pareça remotamente com uma imagem.